A Marítima
Terça-feira, Março 23, 2004
Sol em Buenos Aires
Pedro Pedreiro
Chico Buarque
1965
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficanto pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro esta esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro norte
Pedro nã sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também,
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)
Para minha amiga PGSC.
Quarta-feira, Março 10, 2004

Flamenco
Flamenco de minhas paixoes
Ontem assistindo a Paco de Lucia e Grupo eu chorei.
Pela musica,
pela danca,
pelas palmas que ecoavam pelo palco
Pelos dedos que se encontravam e se iam
Pelas maos que sacudiam ritmadas nas cordas dos violoes
Pelos pes em sapatos vermelhos que batiam contra o chao
Pelas vozes chorosas da tradicao de Andaluzia
Pela crianca que dancava e gritava: "papi" de quando em quando
Chorei pelo cenario azul de firmamento ou vermelho vivo
Chorei pela dor de saber-me ausente
Viajante
Movi os olhos para acompanhar o movimento dos xales pelo ar
As maos na cintura, o jogo de corpo. O mover das saias godet e esvoacantes
Chorei "entre dos aguas"
E queria dancar, queria palmear, ritmar os pes
"Yo solo quiero caminar" - dizia a musica...
Chorei pelos fragmentos de musica que eu entendia
E por um avo de sangue espanhol que eu nunca conheci
Pelos meus cabelos crespos e minha cara de espanhola exilada
Paco de Lucia
me disse com notas
que meu coracao
e flamenco vivo e pulsante
Tributo a Paco de Lucia y su grupo - Royce Hall March 09/2004
Terça-feira, Março 02, 2004
As vezes e assim
as palavras brotam
os sentidos agucam
os dedos frageis
ganham vida propria
De alguma forma nao sou eu quem escreve
sou mansa e quieta
nao deixo palavras me consumirem por dentro.
Mas, ha certos dias em que meu portugues floresce
e ja nao sou mais eu. sou um soldado lutando para cuspir
palavras, desemaranhar-se das teias palavras
Sou soldado em alto mar
levado pela corrente
tal soldado
sente o vento bater-lhe no rosto,
ferir-lhe as carnes
acalmar-lhe o espirito que nao tem paz
tenho ao meu alcance um bloco
vizinho de horas incertas de poemas
desvairados que nao carecem atencao
sou quente e meu fogo acaba por me queimar
me ardem os sentidos, os poros,
nao me importa que eu me repita
se esta caixa de pandora
apenas me da asas para fazer de conta
Avisto uma ilha com bailarinas de Degas
Dancam com seus vestidos azul e rosa
Se ajudam e se exaurem como duas brasas resfolegantes
Seus pes nao conseguem firmar-se
a areia as proibe de movimentos mais
equilibrados
mas mesmo assim elas sao plumas a contrastar
neste circo de soleil em alto mar.
Sou um passaro tentando voar
perco-me no tempo
gasto
Sou um passaro sem querer
abrigo
sou intensa,
fogo estralando nodepinho, madeiraseca, galhosdesgarrados
quero ser poema em vez alma alvicareira
quero ser Hilda Hilst e toda sua rebeldia maculada
Quero o sossego da imensidao dos mares
E o sal colando em corpo franzino e machucado
Sou um passaro tentando voar na agua
escondo-me no tempo de mim mesma
No compasso de espera,
sou o que es,
espelho de ti - rasgada
pelo desejo de te fazer feliz
sou passaro molhado e febril
Cantando
navegando por incertezas
maritimando ao som de outros passaros
Segunda-feira, Março 01, 2004
Ainda quero a mornidao de tuas tardes avermelhadas
de tuas flores roxas espalhadas pelo chao
A curva das lombas que descem abruptamente
e se desfazem na contramao de uma outra rua
Ainda quero teus livros espalhados pela praca
e tua gente caminhando sem destino
Quero aquela mansidao de uma cidade pequena e linda
deitada as margens de um lago ao qual todos chamam rio
Ainda quero o barulho da chave no portao
o som de alguem que chega
Ainda quero a paz das ruas e as pracinhas
convidando a lagartear
Ainda quero o bom fim e as tardes imensas de domingo
sonhando com o Prado, com o Flamenco espanhol e
a febre de estar longe.
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