
Singrando
Saudade não se traduz em ficar triste pela falta de pessoas importantes. Minha saudade não é triste, mas me faz sangrar.
Enquanto singro pelo Pacífico, meus outros me esperam. Do outro lado. E quantos lados tem a minha verdade. Meus outros me chamam. Às vezes eu os escuto e os sinto.
Meu coração abriga muita saudade. Calada. Uma saudade que espreita, que se avoluma aqui dentro quando ouço Cesaria Évora. Uma saudade de coisas, de cheiros, de gente. A saudade da chuva. Do verde.
O dia já se escoa pelas frestas da minha janela. Tenho a luz acesa, os pés frios. O coração batendo forte, lembrando das chegadas. Da coragem da partida. Do choro do meu outro que gostaria que eu ficasse. Mais uma vez, sem perdão, eu parti.
Saudade. Não quero envelhecer aqui ao longe. Não quero deixar de ser reconhecida quando eu voltar. Quero os dias, as noites intensas do meridional, do pararelo exato. Eu quero estar cheia. Cheia dos meus outros.