A Marítima

Domingo, Outubro 02, 2005

 
Se por acaso passares por aqui, entre esses dias tão ensolarados em Porto Alegre, entre essas névoas que me cegam a visão, esses tremores que me calam, quero que saibas que escrevo para ti. E eu sei que não me julgas pelo que escrevo. Mas agora eu escrevo para que proves de mim. Esta pequena carta é um recado e sei que vais saber que é para ti. Nós não precisamos de dedicatórias, não é mesmo? Nós estamos de certa forma entrelaçados entre ditos, lugares, memórias, poemas e livros. Estamos mesclados pela palavra que registra e borda no revés de nós, os dois. Escrevo para dizer-te que preciso falar. Preciso ser ouvida. Que às vezes eu só quero contar para ti o que levo dentro. E depois eu respiro aliviada e te quero mais. Te roubo um beijo e volto. Eu já te quis em tempo de te fazer mais, de te fazer meu, já te quis tarde demais para isso, já te quis urgência, já te quis aos poucos, já te quis serenamente. E já desisti de ti tantas vezes. E vacilei bonito te ligando quando não fazia sentido, te evocando quando não podia, te escrevendo que já não dava mais. E vacilei de novo ontem e vou vacilar mais vezes, mas depois vou me entregar porque agora eu te quero diferente. Te quero de um modo estranho. Alheio. Te quero as pressas ainda por que não há mais o que complique o que é simples. Te quero urgente porque eu não consigo pisar no freio quando estou contigo. Te quero serenamente quando te abraço e sinto tuas formas se alinhando as minhas e tua pele reveste a minha. Eu te esperei sem saber. E voltei e voltando caminho para ti. E caminhando para ti eu me perco e me acho. E te quero todo todo o tempo como nunca fui de alguém. Talvez tu não entendas. E agora te quero diferente. Te vejo com meus olhos grandes e curiosos e vejo nós dois. Eu te abraço e o resto derrete e se esvai. E o tempo. E o espaço. Detalhes que a gente conserta. E os delírios que tu não acompanhas. Eu tive medo ontem. E vacilei. Eu tenho medo hoje. Mas o medo já me fez ir embora muitas vezes. E agora eu estou pronta para enfrentar meu medo. E eu te quero, e quero a tranqüilidade de te ter em meus braços e em meus lábios de novo. Muitas vezes. E não quero sentir medo de te dizer que quero te ver de novo. Que quero estar contigo e que gosto de te ver dormir. E gosto de te ver acordar. E que gosto das tuas estórias. E da tua voz. E que gosto do teu jeito de andar e de recostar minha cabeça no teu peito e não pensar em nada. E que é contigo que quero experimentar. Que quero te entender e te tocar. E morder teus braços e tuas coxas. E sentar no teu colo e esquecer as horas. E sorrir ao te olhar e voltar. Sempre. Voltar. Não quero mais o medo. Quero enfrentar esse bicho de olhos amarelos que faz com que eu me encolha e sempre tente fugir. Porque eu só quero tentar fugir de ti nos jogos do amor. Na vida, eu quero voar contigo.

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