A Marítima
Domingo, Março 27, 2005

A Marítima
Sábado, Março 26, 2005
Não sou mais tua
tu quiseste assim
e eu aceitei
te amo tão imensamente
em distância, que é a forma como
eu meço amor,
seria daqui como a Austrália,
ou talvez um ponto perdido
de um lugar que somente
um astrônomo possa nomear
eu então eu te larguei de mim,
te descolei da minha pele,
te tirei do meu mar
às vezes eu ainda penso em ti
Sem desdém,
não quero o ônus
de querer aquilo que desdenho
penso em ti, como penso no álbum
de fotos dentro do closet
uma figura de Klimt ou de Schiele,
Uma mão foragida
que se enrosca em mim
Penso na água que perdi
quando saíste do meu mar
Me disciplino,
não preciso te esquecer
Já fazes parte de outras águas
A noite chegou e
eu não lembrei de acender a luz
Eu me vejo nos teus olhos
mosaico de luz e sombra
com vários tons de cinza,
tantas asas, tantas flores
Não quero essas memórias,
com uma crosta de pistachios
Quero sal grosso,
cristalino esbranquiçado
essas memórias encrustadas em paixões
tua falta, papéis espessos
Café expresso,
arquitetura
de uma tez pálida e
um pequeno nariz arrebitado
Não pensei que fosses sentir minha falta
Nunca fui tua,
Tu nunca tiveste de mim o
calor do meu corpo
a reviravolta do meu mar
O abraço em concha
as mãos no âmago da vida
Sem ti eu aprendi a sentir frio
as diferenças entre estar só,
me sentir só
Como ser livre
como abstrair dessa escuridão
pedras preciosas,
conchas cor de pêssego,
nácar que eu encontrei em mim
Muito tempo depois de ter
deixado de pensar
que fui tua
Eu não procuro paz,
quero sempre ondas
bravias no meu
mar
Olhos intensos
gotas de azul que vertem em mim
cores de um Kandinsky que musica
minhas emoções
um sotaque carregado(,) (de) uma alma livre
Um campo aberto, o verde sereno de lá
O azul calipso daqui
O mar, o Atlântico, o Pacífico
Meus mergulhos
constantes na alma dos outros
Nossa Senhora
Santa Monica
Os Russos, o ar cinza,
Uma buzina que toca ao longe.
gente que passa
numa maré constante de desejos,
ardências,
buscas
Gotas de arquitetura
nas minhas retinas
Um Gaudí que colore meu céu
e me oferta uma clarabóia
Uma oferenda de mosaicos e pensamentos
alucinantes
Meu quarto se alegra
em cores de primavera
Em cores de Espanha
Os jacarandás que se espalham pelo chão,
as esculturas que lembram tão bem
meus passos de bailarina
um Degas perdido no canto
da sala,
O azul do vestido
justo e leve
A medida certa,
o movimento incontido.
O momento perfeito,
o delírio exacerbado
amor transbordante
Sexta-feira, Março 25, 2005

As gêmeas
Depois do sonho
eu reencontrei uma das irmãs gêmeas
que havia conhecido no passado
e a outra eu vim a conhecer
tarde demais,
com um atraso que
se não tivesse existido
teria mudado a minha vida
Logo em seguida percebi
o quanto diferentes elas eram
os olhos de uma me viam desnuda
ela me sorria um sorriso espontâneo desses
que nos dão um calafrio gostoso
Tinha uma curiosidade que me enfrentava,
contornava minha timidez, trançava meu cabelo,
dava cor aos meus lábios
Caminhava pela fronteira do que aceito,
e do rótulo
Um linha não tão tênue que separa Nashville
da cidade dos anjos
depois do sonho em que
ela me pedia para ficar
eu fiz uma viagem e encontrei a outra imagem,
a outra gêmea,
Ela me olhava em silêncio e eu lhe sorria
sorrisos que vêm de dentro
para um fora desproporcional e abundante
e não se sabe quando recuar
Quarta-feira, Março 23, 2005
Passas por aqui
companheiro
de intrigas,
danças pelo salão cheio,
encostando teu corpo no meu
Voas alto em mim
E me arranhas a alma
Ouvidos em ti
Por ti
Eu viajo em sentidos
de controvérsia,
A mão que puxa o decote
que quer ver
No encontro de nuvens
De grama,
Da cama macia,
Da varanda fresca e aberta
Deito na rede os sonhos,
Escrevo por insistência
Palavras teimosas que voltam e voltam
E não me dão sossego
Venta e chove,
Me aninho em teu ventre
Me enrosco,
Molho o rosto com a água fresca da
chuva
Não quero que me tragas pão
Nem silêncio
Quero te ouvir emanando meu nome
Ardendo- me evocando inteira
Desejando estar na minha rede
Perto, tão perto que eu possa escutar
teu mar fluir em mim
Não me peças para te dar razões
eu não sei,
a língua portuguesa
tem tantas formas
de porquês
eu não sei qual é qual
nessas águas que eu mergulho
os porquês não importam
importam sentires, tocares,
apertar contra o peito
lamber os dedos
molhar os pés nas poças
Molhar o corpo de amor,
revirar os olhos
com cara de tanto faz
não serve
registrar o instante do grito,
da palavra mais árida
da minha mão encostando na tua
do teu perfume encrustrado no meu
Não me digas que queres razões
me segue,
vou te mostrar o
vulcão que tem aqui dentro
e o abandono das regras
o gosto do céu

Outras Águas
Outras águas
agora
correm por meu corpo
Uma alegria que queima
um grito manso
uma exaltação (n)essas águas
peixes saltando, brilhando
nessa piscina na qual eu também
mergulho
sereia, peixe, cavalo-marinho
tudo ao mesmo tempo
assim, confuso inesperado
atrevido como a vida
explodindo por dentro, querendo mais
mais de ti, mais desse momento
outra música para dançar
um copo de vinho branco,
um batom molhado
um lábio fugidio
Gotas de perfume
não me interpeles, eu queimo
também sou água-viva

O dia em que eu virei um Drops da Fal
Faz dois dias que não consigo me alimentar,
estava vivendo de felicidade
Me revirando na cama com idéias
Com imagens de gente que amo
que não posso mais ver
das mãos de seda e
dos olhos verdes dela
Eu estava sentindo felicidade
no estômago, no ventre vazio,
na fome calada
Eu recontei a minha vida para
um grupo grande de pessoas
E olha, eu nunca conto histórias,
quem me alimenta são os outros,
sou toda ouvidos
Mas eu falei das minhas memórias,
aquelas guardadinhas
em folhas amarelecidas
em um papel delicado,
feito a mão
Memórias talhadas em madeira
verde molhado, com perfume de ontem
no dia em que eu pesquei do
meu mar os melhores peixes
eu me descobri um drops,
Um Drops da Fal.
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