O que os outros têm que eu não tenho
Quando passo por momentos de seca, me desoriento. O rumo se torna incerto e uma dorzinha constante começa a crescer. Sopra um vento que desatina, um sol que racha a terra e me faz franzir a testa. Marcas no rosto me lembram da aridez local, meu corpanzil espera um toque e um afago que não vêm.
Os outros falam de chuva, de viagens. De ausências, de estórias mundanas. Da garota que nunca voltou. De um beijo esquecido, na esquina de um lugar do qual nunca mais se passará.
Eu falo das minhas raízes crescendo aqui dentro. Se embrenhando dentro, como um nó. Nós talvez não se embrenhem. Tu que pensas. Cresce uma planta enconstada em algo que desconhece: minhas raízes.
Eu falo sobre nada novo. E me iludo dizendo a mim mesma que sou o João Gilberto das letras. Ouso refinar as mesmas melodias, os mesmos arranjos. E eu toco e toco nas mesmas feridas. Descrevo a mesma dor, a mesma solidão para qual um dia eu dei de costas. Quando foi mesmo que foste por um rumo diferente do meu? Em que sentença eu te perdi?
Eu sei pouco dos outros. Não me arrisco a embalar sonhos e vaidades de ninguém. Quando abraço a mim mesma não espero nada. A solidão é completa e me exaure. Não tenho telespectadores, dicionário, um editor. Não tenho pressa, nem paciência. Cansei de viagens e de vertigens. Cansei de representar. Eu tinha um oceano a minha espera, mas uma seca de palavras me invadiu.
Não me fales da chuva, me deixa no silêncio a ensaiar mais uma toada.
Afinal a minha canção por Madredeus
Letra de Pedro Ayres Magalhães
afinal deixei
a terra natal
e cantando andei
menos mal
se calhar mudei
bem sei
que não fiquei
igual
tanto que passei
tão longe daí
que em mim um país
construí
e assim foi melhor
porque
não senti o medo
e a minha canção
lá deixava ouvir
o vento no mar
o mar a bramir
à minha canção
chegava
esse mar
que eu canto
lá por onde andei
nem julgo saber
a viagem é
um só lugar
mas onde eu cantei
ficava
um sabor
a sal
houve até um dia
em que imaginei
que sempre que eu vinha
cantar
vinha a maresia
boa
para me ajudar
e a minha canção
lá deixava ouvir
o vento no mar
o mar a bramir
à minha canção
chegava
esse mar que eu canto
e a minha canção
lá deixava ouvir
o vento no mar
o mar a bramir
na minha canção
morava esse mar que eu canto
De urgências
Não tenho mais a urgência
de trocar olhares,
Agarrar-me a mãos e deslizar
Minhas urgências são outras
Escrever essas palavras que me
acercam
que me sugam
que me soam tão estranhas
e tão minhas
Minhas urgências perpassam
labirintos
sons
as ruas novas com cheiro de verde molhado
Gotas de oceano que se esvaem por meus poros
Um novo-velho sentimento de querer ser livre
Uma ânsia que eu guardo em uma caixinha
A espera do momento certo
Uma urgência que se desfaz
que coabita em mim
me faz tremer. Temperar a alma
Aquecer o corpo
Viajar por ti.
Tango
Goyeneche me rasga a alma
Me fala seu espanhol argentino,
compassado
Buenos Aires me faz falta.
Aquele frio com sol, nesgas de vermelho no céu
O café para deixar a língua amarga,
o corpo quente
Caminhadas por Puerto Madero,
o som do llllsss,
O olhar do estranho dentro do ônibus
O tango insandecido
Uma paixão de inverno

Outros mares de mim
Não sou mais tua
tu quiseste assim
e eu aceitei
te amo tão imensamente
em distância, que é a forma como
eu meço amor,
seria daqui como a Austrália,
ou talvez um ponto perdido
de um lugar que somente
um astrônomo possa nomear
eu então te larguei de mim,
te descolei da minha pele,
te tirei do meu mar
às vezes eu ainda penso em ti
Sem desdém,
não quero o ônus
de querer aquilo que desdenho
penso em ti, como penso no álbum
de fotos dentro do closet
uma figura de Klimt ou de Schiele,
Uma mão foragida
que se enrosca em mim
Penso na água que perdi
quando saíste do meu mar
Me disciplino,
não preciso te esquecer
Já fazes parte de outras águas
E se a poesia vier quando eu estiver no quarto,
sem luz, sem papel e sem caneta?
naquela solidão que dói
Ah...o desespero que corre nas
veias de um indeciso.