A Marítima

Quinta-feira, Abril 28, 2005

 
O que os outros têm que eu não tenho


Quando passo por momentos de seca, me desoriento. O rumo se torna incerto e uma dorzinha constante começa a crescer. Sopra um vento que desatina, um sol que racha a terra e me faz franzir a testa. Marcas no rosto me lembram da aridez local, meu corpanzil espera um toque e um afago que não vêm.

Os outros falam de chuva, de viagens. De ausências, de estórias mundanas. Da garota que nunca voltou. De um beijo esquecido, na esquina de um lugar do qual nunca mais se passará.

Eu falo das minhas raízes crescendo aqui dentro. Se embrenhando dentro, como um nó. Nós talvez não se embrenhem. Tu que pensas. Cresce uma planta enconstada em algo que desconhece: minhas raízes.

Eu falo sobre nada novo. E me iludo dizendo a mim mesma que sou o João Gilberto das letras. Ouso refinar as mesmas melodias, os mesmos arranjos. E eu toco e toco nas mesmas feridas. Descrevo a mesma dor, a mesma solidão para qual um dia eu dei de costas. Quando foi mesmo que foste por um rumo diferente do meu? Em que sentença eu te perdi?

Eu sei pouco dos outros. Não me arrisco a embalar sonhos e vaidades de ninguém. Quando abraço a mim mesma não espero nada. A solidão é completa e me exaure. Não tenho telespectadores, dicionário, um editor. Não tenho pressa, nem paciência. Cansei de viagens e de vertigens. Cansei de representar. Eu tinha um oceano a minha espera, mas uma seca de palavras me invadiu.

Não me fales da chuva, me deixa no silêncio a ensaiar mais uma toada.

Terça-feira, Abril 26, 2005

 
Afinal a minha canção por Madredeus
Letra de Pedro Ayres Magalhães


afinal deixei
a terra natal
e cantando andei
menos mal
se calhar mudei
bem sei
que não fiquei
igual

tanto que passei
tão longe daí
que em mim um país
construí
e assim foi melhor
porque
não senti o medo

e a minha canção
lá deixava ouvir
o vento no mar
o mar a bramir
à minha canção
chegava
esse mar
que eu canto

lá por onde andei
nem julgo saber
a viagem é
um só lugar
mas onde eu cantei
ficava
um sabor
a sal

houve até um dia
em que imaginei
que sempre que eu vinha
cantar
vinha a maresia
boa
para me ajudar

e a minha canção
lá deixava ouvir
o vento no mar
o mar a bramir
à minha canção
chegava
esse mar que eu canto

e a minha canção
lá deixava ouvir
o vento no mar
o mar a bramir
na minha canção
morava esse mar que eu canto

Quarta-feira, Abril 20, 2005

 
Para ler o post novo do A Máquina de Escrever

 
De urgências

Não tenho mais a urgência
de trocar olhares,

Agarrar-me a mãos e deslizar

Minhas urgências são outras
Escrever essas palavras que me
acercam

que me sugam
que me soam tão estranhas
e tão minhas

Minhas urgências perpassam
labirintos
sons

as ruas novas com cheiro de verde molhado
Gotas de oceano que se esvaem por meus poros

Um novo-velho sentimento de querer ser livre
Uma ânsia que eu guardo em uma caixinha

A espera do momento certo
Uma urgência que se desfaz

que coabita em mim
me faz tremer. Temperar a alma
Aquecer o corpo
Viajar por ti.

Quinta-feira, Abril 14, 2005

 
Tango

Goyeneche me rasga a alma
Me fala seu espanhol argentino,
compassado
Buenos Aires me faz falta.

Aquele frio com sol, nesgas de vermelho no céu
O café para deixar a língua amarga,
o corpo quente

Caminhadas por Puerto Madero,
o som do llllsss,
O olhar do estranho dentro do ônibus

O tango insandecido
Uma paixão de inverno

Sexta-feira, Abril 08, 2005

 

Outros mares de mim

Não sou mais tua
tu quiseste assim

e eu aceitei

te amo tão imensamente

em distância, que é a forma como
eu meço amor,

seria daqui como a Austrália,
ou talvez um ponto perdido
de um lugar que somente
um astrônomo possa nomear

eu então te larguei de mim,
te descolei da minha pele,
te tirei do meu mar

às vezes eu ainda penso em ti
Sem desdém,
não quero o ônus
de querer aquilo que desdenho

penso em ti, como penso no álbum
de fotos dentro do closet

uma figura de Klimt ou de Schiele,
Uma mão foragida
que se enrosca em mim

Penso na água que perdi
quando saíste do meu mar

Me disciplino,
não preciso te esquecer

Já fazes parte de outras águas

Sábado, Abril 02, 2005

 
E se a poesia vier quando eu estiver no quarto,
sem luz, sem papel e sem caneta?

naquela solidão que dói


Ah...o desespero que corre nas
veias de um indeciso.

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