A Marítima
Domingo, Julho 31, 2005
TYME AND TIME
De volta de uma temporada no Wisconsin, estado do meio oeste dos Estados Unidos, fiquei sabendo que naquele estado as tão comuns Automatic Teller Machines ou ATMs têm ou tinham um outro nome: TYME machine. Ninguém que é de fora do Wisconsin entenderia se alguém lhe perguntasse onde fica a mais próxima TYME machine. Aliás, seria muito engraçado perguntar isso, já que TYME e TIME são homófonas. TYME significa Take Your Money Everywhere. TIME é tempo ou vez. Para pessoas dos outros estados americanos a TYME machine seria algo como máquina do tempo ou máquina para ver as horas.
Aqui está a foto de uma placa indicando onde está a TYME machine:
Bill Withers said it all:
I don't want you on my mind all the time
I believe that it shows a sign of weakness
I don't want no lonely nights that gets me cryin'
I found out I don't get nowhere with weakness
Every dream about you
I just wake up knowing that I've got to do without you
Sábado, Julho 30, 2005

Em algum lugar no Wisconsin: El Sur y El Norte
Eu poderia mencionar para ti as manhãs frias de Buenos Aires, as tardes quentes em Los Angeles, a voz da Mercedes Sosa perpetuando minhas mágoas. As dores da partida. O soco que foi para mim recobrar os sentidos e me descobrir vacilante, quando os beijos já haviam cessado.
Eu poderia te contar dos poemas escritos para dentro, que não se queriam explícitos. Poderia te contar das pequenas memórias, dos museus que visitei e, surpresa, me descobri pensando em ti. Da vez que assisti a Paco de Lucía e quis tomar o primeiro avião para a Andaluzia ou Porto Alegre, o que viesse primeiro. Poderia te falar dos meus encontros com José Saramago e Moacyr Scliar.
Eu também poderia te falar do esquecimento que se seguiu àquele último encontro apressado. Das coisas novas que aprendi, do fortalecimento que estar longe impõe. Poderia falar das idas a Porto Alegre, aquele café que têm o cheiro dos cafés de Londres porque foi isso que tu me falaste. Há tanto tempo.
Mas para contar-te tudo isso de uma forma autêntica, de uma forma afinada, não com meus sentimentos, mas com minhas memórias, que teimam em enfeitar uma "relação" bissexta, eu teria que te escrever pelo menos uma carta todos os dias, por vários dias do ano corrente.
Teria que me esforçar para descrever cada detalhe e cada saudade/memória que ficou. A distância também serviu de oxigênio para que eu lembrasse o que passou com uma leveza que nunca houve entre nós. É tão tentador enfeitar a verdade, colorir nosso retrato em branco e preto. É tão mais bonito enfeitar o que vivemos com filmes, músicas, livros dos quais nos apropriamos para contar um para o outro como foi estar longe, dividido.
Deixo-me levar pelo silêncio. Eu encontro menos ônus em omitir. Em tentar esquecer cinco anos que tu pensas que são seis. Para mim agora tanto faz.
Quarta-feira, Julho 20, 2005
Foto de Luis Zilhão fisgada do 1000 Images
Campos de AlfazemaQuando tu já não me fazias falta
me estendeste tuas mãos
e tua velha ironia mascarada
E ao contrário do que pensam alguns,
não, nada me ocorreu
Não passei a andar mais depressa,
nem tampouco desacelerei
Não me vieram uma gota de sangue à boca, nem um fio de voz
Segui adiante sem epifanias, delírios, febres
Não te naveguei
Segui meus traços, planos
esquálidos- mansidão de lago
Segui coração aberto, cabeça altiva
Inalterada
Quando me vieste de surpresa
Não eras visita, eu não te esperava
Não eras incômodo, respiração ofegante
Ou nem mesmo sexo puro e simples
Não eras orvalho, castanho
Conchas da praia
Foste insípido, memória rota
Já não te queria, não te consumia
Te via de longe, ventania em campo de alfazema
Não te achegaste ou foi assim que eu te li: ausente
Sem lugar azul/lilás para ti em mim
Segunda-feira, Julho 18, 2005
E no meu iPOD: You Don't Know What Love Is, por Chet Baker. You don't know what love is
Until you've learned the meaning of the blues
Until you've loved a love you've had to lose
You don't know what love is Uma de minhas canções de jazz favoritas...
Casa Panza, um ótimo restaurante espanhol na Calle Ocho, com tapas maravilhosos: aberto até que o corpo aguente!
Little Havana Desde que saí de Porto Alegre me confronto com os passos e o ônus de aprender uma nova língua, morar em um lugar em que não temos amigos, uma situação definida, ou a sensação de não saber ao certo o que fazer. Ainda me lembro do medo de não aprender inglês a falar inglês que eu sentia quando mudei para cá. De ser como alguns colegas de aula com os quais eu conversei brevemente algumas vezes: não foram poucos os que moravam aqui já há anos e nunca tinham atendido a um telefonema sequer por medo de falar o idioma, ou por ainda não saber falar inglês. E isso me fez pensar que as pessoas criam para si um mundo próprio, ou uma janela pela qual mantém vínculo com o lado de fora.
Para uns ainda existe o mundo antigo para o qual eles podem voltar. Ou para o qual eles
pensam que podem voltar. Alguns fazem planos e determinam uma data em que vão retornar para casa. Para alguns, parece que sempre há algo mais que os prende e a data de retorno passa a ser um sonho distante.
Outros imigram de corpo e alma, estão dispostos a agarrar com unhas e dentes oportunidades novas, ainda que não sejam oportunidades tão significativas assim. Para outros existe a idéia que não pertencem nem lá, nem cá. Para uns importa encontrar uma comunidade que esteja no mesmo nível da deles. Fale o mesmo idioma, reze pela mesma bíblia, tenha os mesmos interesses. Para outros é preciso achar produtos conhecidos, os mesmos pratos habituais, os mesmos ingredientes comprados em supermercados na sua terra longínquaaindapresente.
Ontem visitamos a Calle Ocho, o coração cubano de Miami. Os restaurantes geralmente têm umas janelinhas que se chamam "ventanas" na qual a pessoa pode comprar café, sucos, batidas, pastéis. As pessoas não sentam, ficam em pé, jogando conversa fora.
O café cubano é uma delícia. Forte e doce. Os homens jogam dominó no parque e usam chapéus. As mulheres não vão muito ao parque para o jogo. Eles se vestem com cores vivas e tropicais, geralmente rosa, branco e verde, no melhor estilo malandro cubano. Alguns são elegantes. Falam um espanhol melódico que parece música. Para eles "sandía" é "melón", o que a mim causa uma certa confusão. Estacionamiento é parquear. Parquear aliás, se não estou enganada, também é usado no México.
Um teatro anunciava um espetáculo para relembrar Célia Cruz e Libertad Lamarque. Um encontro entre duas divas da música latina.
Numa das esquinas um senhor velho vendia frutas. Falava espanhol baixinho e para ele a moeda nacional é o peso. Acho que ele ainda se sente e vive em Cuba.
Domingo, Julho 17, 2005
Ai...falei. As pessoas me perguntam como é viver nos Estados Unidos. Embora eu pense bastante sobre isso e eu tenha encontrado algumas respostas, ainda não tinha escrito sobre. A verdade é que é difícil diminuir as arestas que existem entre a cultura americana, a minha vida aqui e as minhas famílias brasileira e americana. Me parece de quando em quando, que nunca serei justa nem comigo, nem com os outros. É tão complexo deixar um lugar e mudar para outro. Envolve tantas pequenas mudanças, tantas novidades, aquisição de hábitos, uma saudade imensa.
É difícil começar a vida do zero quando já se tem vinte e poucos anos. O que me trouxe para cá, no entanto, não foi o oásis que muitos avistam por aqui. Foi amor. A cultura americana me interessava pouco (E ainda me interessa pouco). Mas, depois que mudei para cá consegui me desarmar e fazer amigos. Conheci gente maravilhosa e através do olhar deles passei a me conhecer melhor. Minha visão de mundo cresceu, meus gostos se diversificaram, embora eu ainda seja, ou esteja, muito daquela pessoa que veio. Embora eu ainda tente voar, dançar a dança que eu inventei, abraçar meus sonhos e as palavras dos outros, eu ainda sou um pouco daquela que veio e um grande mar vivo e incadescente em busca de novos rumos.
Muita gente critica os Estados Unidos. Eu também. Mas eu me pergunto, existe lugar perfeito? Pessoas perfeitas? Existe um manancial inesgotável de felicidade em qualquer lugar do mundo? Existem políticas perfeitas? Táticas que não ultrapssem o limite do outro?
Depois de vir morar aqui eu mergulhei na língua inglesa. Ouvindo a BBC de Londres, a NPR, lendo a The Economist, ouvindo ao The World da PRI e etc. Eu tive medo de afundar sem saber uma palavra de inglês. Nem por isso deixei de ser brasileira.
E me dei conta que muita coisa depende da perspectiva com a qual a gente encara os acontecimentos. Para uns o Bush é um tosco, um otário, por exemplo. Me inclua nessa, por favor. Mas isso não quer dizer que o povo americano todo pense da mesma maneira. Por favor, fale comigo com argumentos mais convicentes. Me mostre por A mais B que todos os americanos que você conhece são monstros. A propósito, quantos americanos de fato você conhece?
A questão política daqui é complexa assim como a do Brasil. A política externa não depende dos americanos per se. Uma análise cuidadosa é mais válida que um apressado julgamento baseado em suposições. Dizer que todo americano é uma besta quadrada é como dizer que todo brasileiro pensa como o presidente da câmara dos deputados do Brasil. Eu francamente espero que isso não seja verdade. Além disso todo mundo se esquece da cultura americana espalhada pelo mundo. Se não houvesse assimilação, talvez o "imperialismo yankee" na avançasse tanto, pelo menos no quesito cultura. A verdade é que os americanos são bons em vendas, e todo mundo compra. Os brasileiros falam bastante disso e daquilo, mas adoram a cultura americana e vez que outra mutilam a língua inglesa para parecerem espertos, cultos.
Um país tem que respeitar a si próprio antes de exigir respeito. O mesmo vale para um povo.
Se o cinema brasileiro não tem audiência, não culpe o cinema americano.
Por acaso a música americana também não está infiltrada nas rádios? E não é Jazz, não. É a nata de todo o lixo. Por acaso as pessoas não comentam sobre a última vez que almoçaram no McDonalds? Na época que eu morava em Porto Alegre comentavam, como se isso fosse um grande feito. Pois é, eu sei...gosto não se discute.
A lista de coisas que mostram a nossa receptividade e contribuição ante à expansão da cultura americana é imensa. Quem esteve circulando por qualquer cidade brasileira nos últimos anos sabe que é assim mesmo que acontece.
A gente tem poder de escolha. Use o seu livre arbítrio e decida o que vai fazer parte da sua vida. Eu escolhi o que vai ser parte da minha.
Sexta-feira, Julho 15, 2005
Ele é bonito e determinado. Pelo jeito gosta de uma cor que eu detesto: amarelo. É texano, gosta de pedalar e é famoso. Torço por ele. Torço pelo que ele representa. Os franceses que me perdoem... Mas eu espero que ele ganhe the Tour de France.

E no meu iPOD, Elis reina soberana:
Basta De Clamares Inocência
Do Cartola
Basta de clamares inocência
Eu sei todo o mal que a mim você fez
Você desconhece consciência
Só deseja o mal a quem o bem te fez
Basta não ajoelhes, vá embora
Se estás arrempedida
Vê se chora
Quando você partiu
Disseste chora, não chorei
Caprochosamente fui esquecendo
Que te amei
Hoje me encontras tão alegre
e diferente
Jesus nao castia o filho que está inocente
Basta não ajoelhes, vá embora
Se estás arrependida
Vê se chora
Romero Britto, fisgado do Google Image
Tu és um cântaro, do qual vertem rosas para mim.
Quarta-feira, Julho 13, 2005

Pé na tábua
Eu gosto mesmo é de acelerar. 80 milhas por hora. A música do Vitor Ramil no meu iPod e minhas memórias se acumulando. Fogo que queima dentro, sede de vida. Uma estrada pela frente e destino azul-cristalino. Estou indo mergulhar no Golfo do México com paixão por peixinhos prateados e amarelos e por aquelas águas que me acolhem todo verão. É por isso que tenho pressa de chegar.
Sexta-feira, Julho 08, 2005

Danae, Gustave Klimt
Fuiste mia un verano por Leonardo Favio
Hoy la vi... fue casualidad,
yo estaba en el bar, me miró al pasar
yo le sonreí, le quise hablar
me pidió que no, que otra vez será
que otra vez será, que otra vez será
tierno amanecer, sé que nunca más.
Cómo olvidar su pelo, cómo olvidar su aroma
si aún navega en mis labios el sabor de su boca
cada chica que pase con un libro en la mano
me traerá su nombre como en aquel verano
fuiste mía un verano, solamente un verano
yo no olvido la playa ni aquel viejo café
ni aquel pájaro herido que entibiaste en tus manos
ni tu voz ni tus pasos se alejarán de mí.Portuñol
Yo no sé escribir que te quiero
Quiero sentir tus manos
tu sonrisa de marfin
tu piel clara
como los rayos del sol temprano
Yo no sé por que te quiero
Donde veniste
Estoy lejos,
pero aqui dentro
estas siempre conmigo
Quinta-feira, Julho 07, 2005

A tempestade por Kimt - Ronald Reagan Turnpike Florida 2005
Não sei quando o laço que os unia tão estreitamente se rompeu. Esse fato pouco importa por que o que ressoa dentro deles é mais pesado que as razões.
Entender nesse caso não elucida, apenas remexe memórias que eles já não têm, ou não querem ter, por medo.
Ela lembra, no entanto, que queria contar como foi seu dia e falar sobre seu apreço pelo seus sacrifícios, mas ele - um recluso inveterado - não abria suas conchas bivalves a ninguém. À deriva ele flutuava, naquela vida feijão e arroz. Dava voz aos pensamentos de indiferença que mastigavam a vida dos outros também. Com um coração empedernido ele viajava todos os dias ao trabalho, sem hora para voltar. Era inútil tentar adivinhar-lhe os sentimentos.
Escurecia, o céu se abria em mornidão, o sol raiava e os anos transcorriam naquela mesmice presente, cortante - esmiucei minha vida para ti, pensavámos nós. E tu o que nos dás em troca?
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