A Marítima
Quarta-feira, Agosto 31, 2005
Lema de hoje:
se eu construo, eles virão...algo bem campo dos sonhos... :)

CIDADELA DE SAINT-EXUPÉRY
Cidadela entrou na minha vida aos onze anos. Foi uma incógnita que me cansou e da qual, precocemente, eu desisti.
Pois bem, por razões que não têm a menor importância, retirei da biblioteca local uma cópia do dito cujo depois de dezesseis anos. Para reavaliar, rever, ressucitar.
Há duas semanas que manuseio o livro e faço com que se entregue a mim aos poucos. De gole em gole. Gota por gota. Cada linha ao seu tempo. Apesar de eu achar que alguns trechos são bastante ultrapssados e/ou com conceitos dos quais discordo, hoje folheando-o, despretenciosamente encontrei um trecho que reverberou aqui dentro e dizia mais ou menos assim:
"Tu confundes minha generosidade com entrega"
Não posso transcrever o trecho porque não marquei a página e agora não encontro...ehehe
Enfim, achei outra parte muito interessante:
Voltará para ti, se és escultor, o sentido do rosto. Voltará para ti, se és sacerdote, o sentido de Deus; voltará para ti, se és namorado o sentido do amor; voltará para ti, se és sentinela, o sentido do império; voltará para ti, se és fiel a ti própria e limpas a tua casa embora ela pareça abandonada, a única coisa que te pode alimentar o coração. Não sabes a que hora será a visita, mas convém saberes que só ela no mundo é capaz de cumular.
É isso...gostei nesse momento tem tudo a ver comigo.
Toda febre
Os delírios que eu tiver
vão ser meus
vão me dar alegria
Vão me conduzir no escuro
Vão te trazer a mim sem que tu
saibas, sem que tu queiras
ou mesmo participes
Cada levante de loucuras
cada respiro de ti
Cada poema e cada gota de sangue
Cada vez que o esmalte derramar-se
tapete
Toda vez que o cinema for escuro
E a música for bonita
Eu vou guardar para mim
Vou mandar flores a mim mesma
Enfeitarei o meu jardim
Não mais o teu
Segunda-feira, Agosto 29, 2005
Gitano Puro do Gipsyland no repeat há mais de meia hora...
Sábado, Agosto 27, 2005
Eu vinha pela vida a construir barcos
demoraste tanto a chegar
que eu reuni em mim uma frota
pesada e grande --que me sustenta em pé
mesmo com ondas gigantecas
filhas de ventos severos
e céus sombrios de tempestade
Eu vinha pela vida
sem voar
porque a paixão reprimida
aprisiona,
mas eu também
vinha me refazendo
de ti: como quem não mais espera
apenas vive na imaginação
o que não pode ser real, nem mundano
O que segue uma sina,
como um curso de rio
que está fadado ao desencontro
e ao passado
Eu vinha pela vida
aprendendo a cortar fios e elos
que me prendiam
a pesos, âncoras
que eu mesma criei
Eu vinha pela vida
descobrindo pontes com asas
poemas que descrevem
pedacinhos de mim, de ti
poemas que também dão asas a sonhos
Eu vinha devagar porque eu sabia
que cada passo me daria mais
um dar de ser, de conquistar a mim mesma
Me descobrir mulher, me libertar
Uma conquista que me faz olhar adiante
me equilibrar em mim
querer estrelas no meu quarto toda noite
dizer sim, fazer entregas e escolher
O que te trouxe à mim?
Não sei. Sinto um receio bobo
de quem reencontrou um grande amor
ainda por ser vivido
e que se ressente com reticências
Um receio que se alimenta de
ilusões, prenúncios
Um se constante que a distância
teima em tornar tônico
Daquela frota que eu construí saem
borboletas douradas e azuis
que me guiam para ser tua e tentar
porque já não tenho escolha
o pensamento está em ti,
o olhar no espelho quer te encontrar
a canção se quer cantada para ti
Talvez este seja um peso
que tu não possas ainda
carregar
uma paixão que mais uma vez
tu não podes viver
Mas ainda assim,
eu me entrego ao desconhecido
e me desvencilho do que não é etéreo
E vôo até onde tu estás para ouvir de
ti que não estás pronto
para mergulhar em nós dois.
E só de nós virar
um grande e belo oceano.
Terça-feira, Agosto 23, 2005
Patria ChicaDas memórias mais antigas que guardo, a mais pungente é a da minha mãe e meu pai cantando canções de amor em festas de família. Ouvi-los em italiano e espanhol era um deleite para mim. Nós nunca ficávamos em casa apesar de sermos pequenos. Éramos levados para reuniões e ouvíamos as músicas e eu inclusive me esbaldava dançando. Durante algum tempo, eu fui o pé-de-valsa mais novo da família. Todos comentavam minha leveza... Eram os meus cinco minutos de fama familiar.
De qualquer forma, uma de minhas canções favoritas era um dueto realizado pelos meus pais em que meu pai fazia uma parte falada em espanhol e dizia assim:
...Patria chica la esperanza
y todo aquel que llega a Santa Fe...
Acho que o nome da canção era Santa Fe. Eu não sabia o que
patria chica queria dizer. Hoje por falta de sono abri um livro sobre a história da Espanha. A Espanha é uma grande paixão que começou naquelas festas de família. Hoje descobri o que
patria chica quer dizer. Um espanhol se refere a patria chica quando quer se referir a uma região da Espanha como Andaluzia, por exemplo. O texto ainda falava que esse sentimento é muito presente para os espanhóis. Claro que foi impossível não lembrar que no Brasil acontece o mesmo. Cada brasileiro tem sua região a qual chama de patria chica. A minha é o Rio Grande do Sul, que fica na Região Sul. E quanta falta eu senti dela...
Homem esponja que só absorve da mulher, não dá. Tem que participar.
Sexta-feira, Agosto 19, 2005
Quando a data de validade expira, aí criança, só chorando no cantinho.
Quarta-feira, Agosto 17, 2005

Todas as fotos de Jean Jouillet - Hilton Hotel Buenos Aires, Agosto de 2004.
Los Angeles, 25 de Setembro de 2004
Quando voltei, a casa me parecia mais clara e mais limpa. Os sons eram diferentes e o silêncio abundava por entre as cortinas, os sofás, os porta-retratos. A conversa, no início rala, deu lugar a um monólogo baixo e estanque. A saudade havia sido extinta, mas logo criara-se outra. Saudades inexplicáveis. A primeira da infância falada em espanhol e português. Sentida em um idioma estrangeiro e inusitado.
A infância viajada ao pampa, pelas estradas do sul do Brasil. As estradas do Uruguai. Tão longas e largas. Cruzando um verde que ainda estava dentro de si. A volta demorada aconteceu rapidamente. Quando deu-se conta já era hora de recolher seus pertences e partir. A incerteza de uma data de reencontro rasgando por dentro. Embotoando a garganta.Fazendo gente grande apequenar-se. Viera novamente para ver os seus, embora soubesse que não poderia dar-lhes outra vida, outros olhos. A dor da impotência, do não-poder...
Também voltara ao pampa que foi o mais perto de suas memórias de infância que poderia chegar. O Uruguai agora sentia-lhe diferente. Cruzar o Rio da Prata havia de criar-lhe uma outra saborosa e profunda lembrança. Mais um fantasma a assombrar-lhe a hora da volta, os momentos vazios diurnos e insalubres do retorno. Do ir-se embora.
Alargou fronteiras nessa viagem. Criou novos quebra-cabeças. Fez do tango um amigo íntimo. Das ruas de Buenos Aires guardou o perfume, que chega-lhe abruptamente.
O partilhar dos dias com o irmão, que outrora havia sido cúmplice por um Uruguai tão distinto e bêbado, era fragmento do passado de ontem. Não sabe o que fazer agora. Que fazer com essas memórias? Já que guarda em si o gosto de experimentar, guarda em si o sabor de um novo ar. Uma querência nova para amar. Reencontrou seu passado um tanto de seu passado, e recriou uma história.
Terça-feira, Agosto 16, 2005
Então tá, amanhã tem entrevista. Muita força na peruca nessa hora, como diriam
elas, minhas ídolas...
Vou me descobrindo aos poucos,
Me edifico mulher, ofício árduo
quero experimentar lábios,
matar a saudade
Mas quero ser mulher e
estar de igual para igual
Quero continuar minha escalada
e te abrir uma janela aos poucos,
depois quem sabe a porta
Antes disso quero pintar o céu
no teto do meu quarto
Ouvir o mar, me sentir bem
vestida de mim mesma.
Quero formigar por ti
Ver estrelas, te enlaçar em mim
quando finalmente eu encontrar mais de mim
aqui
man-sa-mente
E em vez de esquecer, de súbito
eu lembrei do sorriso, da voz
da cor dos olhos
E como que em choque
quis voltar

Especies que desaparecen
Los Rodríguez
Composição: Desconhecido
Somos de una especie que desaparece,
hasta nuestras diferencias se parecen,
somos como el tiempo perdido,
con palabras dichas al oído de nadie.
Creo que somos los últimos en la tierra de nuestra clase.
Por favor no me dejes!
Somos como el tiempo perdido,
como palabras dichas al oído de nadie.v Creo que somos los últimos en la tierra de nuestra clase.
Por favor no me dejes.
Que eso no pase entre los dos,
que eso no pase entre tos dos,
que eso no pase entre...los...dos.
Por favor no me dejes.
Que eso no pase entre los dos,
que eso no pase entre los dos,
que eso no pase entre...los...dos.
No somos los últimos en la tierra de nuestra clase.
no me dejes.
Segunda-feira, Agosto 15, 2005
Ser tua independe
de estar contigo
Transcende
Remanesce,
É perpétuo
Está escrito em mim
Domingo, Agosto 14, 2005

Há certas declarações que nos pegam de surpresa e nos deixam atônitos, boquiabertos, sem palavras, estremecidos. Pois foi exatamente assim que eu me senti. Sexta-feira eu tomei dois drinques (eu que não bebo) por conta de não saber o que fazer. Voltei para casa e fiquei olhando as estrelas através da janela. Vi quando o céu foi clareando.
Mentalmente eu reli as palavras, sem saber em que pensar. E olhei as estrelas, como se elas fossem me dar uma resposta, me ensinar a conjugar verbos novamente. Porque minhas ações já não eram ações; eram arremedos e minhas certezas lendas de um tempo chamado ontem.
Nina Simone canta e canta e eu me enrolo cada vez mais em meus pensamentos perdidos, longe. Reli os e-mails e senti as horas se arrastando. E então eu reli os e-mails. Revi as fotos. Fiquei querendo uma segunda-feira qualquer, a solidão para poder pensar. O silêncio que me faz tua, a entrega livre, as desinibiçoes de sorrir e não precisar esconder.
Mais lembranças se seguiram: o menino da escola que tinha a tua graça ao quadrado. Ele tinha teu nome e o mesmo encanto. Ele tinha cabelos iguais ao teus, mas eram ruivos. Difíceis de esquecer. Ele me fez fugir da sala do jardim de infância há vinte anos, exatos vinte anos. Ainda me lembro da cena na porta da sala de aula dele e eu correndo.
Depois me revi em quadros sépia espiando-o no pátio de sua casa, que eu descobri ficar perto da minha. Engraçado como eu queria encontrá-lo, e nunca pude. Será que em alguns aspectos as histórias se repetem? Será que a gente busca isso por um motivo qualquer, incoscientemente?
Depois dessa lembrança eu pensei no filme Before Sunset. Nina Simone de novo. E mais Nina Simone. No filme eles se reencontravam em Paris. Passeavam pelo Sena como eu passeio por ti. Querendo. Querendo resolver, discutir. Te Contar. Te contar que da minha pele nascem flores...dos meus lábios as letras do teu nome, de trás para frente, são letra de música. Mul-ti-for-me. Colorida. Valseada como a Valsa Para Uma Noite, trilha de Before Sunset que de certa forma conta uma história que é nossa.
Continuação: Manhã de 16 de agosto...
Ainda estou estremecida. Ontem abrindo uma revista estava lá GGM e uma matéria sobre seu novo livro. Falava de sua carreira e um trecho de seu livro tamborilava diante dos meus olhos: "Descobri, enfim, que o amor não é um estado de espírito e sim um signo do zodíaco."(Em: Memórias de Mis Putas Tristes, de Gabriel García Márquez)
Como poderei eu evitar GGM?
Tu encerras em ti
um olho único
capaz de me ver por dentro
Sexta-feira, Agosto 12, 2005

American humor: Part 2

American humor: Part 1
Quinta-feira, Agosto 11, 2005

João Cabral de Melo Neto
Alguns Toureiros
a Antônio Houaiss
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema

Te tenho em mim
como tenho Sevilha, as danças flamencas
As dores de amor
Te tenho em mim tatuado na boca
no sabor fresco do vinho derramado
Pôr do sol de silêncio e calor
Te tenho em mim, saliva doce
abraço quente,
corpo colado em ti
mãos de afago, palavras ditas baixinhas
sotaque de música distante
Te tenho em mim alma flamenca,
danças explosivas
a mão certeira
te tenho em mim som ao vivo,
cores de marfim e ébano.
Te tenho em mim beijo de morte
dores de amor, dores de um parto inverso
uma morte lenta
na arena com pano vermelho e flor de outono
Te tenho em mim perfume de Paloma Picasso
amadeirado, sobrio à beira do colapso
E as dores seguem
porque as dores assim são pungentes,
necessárias
Espalmando as mãos
espalhando o corpo
eu te tenho Sevilha
sozinha em um canto do mundo
Quarta-feira, Agosto 10, 2005
Às vezes eu sou a mãe, e ela é a filha.
Segunda-feira, Maio 03, 2004
Preciso com urgência deixar de escrever a verdade.
Parar de dizer que fazia tempo que eu não me sentia assim,
Pedra batendo no peito
Dolorida, olhos ardendo - não querendo ver.
Meus lábios se entreabrem -
não professam palavra alguma
Procuro por ele.
Está ausente há tanto tempo.
Não entendo.
Vou à praça, procuro um balanço
para lembrar do tempo aquele
Sonho com ele
E venho para a máquina
de escrever contar.
Segunda-feira, Maio 10, 2004
Aqui o mar é diferente
me desorienta
É que fica do outro lado.
Não tenho compromisso
esfrego meus pés na areia morna
não me exaspero
as ondas me lambem e envolvem
o céu me abraça com um azul
de perdição
Beijo na boca os corais que coloridos
me fazem companhia
Arde minha pele sob o sol
escaldante de uma praia remota.
Me debruço em ti,
alabastro azul que permeia meus sentidos
Violeta,
turquesa
Tons de oceano que navegam nas minhas retinas
Caminho pela foto preto e branco que contrasta
com a água do mar
O Sena passeia por mim
Me encontra acanhada
Longe de mim
Mergulhada em águas frias
A corrente me leva a lugar algum,
não te sigo
Espero
pelo mar
Não estou em guerra.
Mas, te fuzilo dentro de mim
Esqueço teus
olhos-azuis-de-imensidão
Não te quero memória, sonho,
não te quero presente em mim
Nem nas danças dos meus pensamentos inquietos
Te quero longe
do outro lado
Torcendo para outro time,
dançando outra música, falando outra língua.
E se possível com outro número de telefone
Publicado no Máquina de Escrever
sem data
Meus dedinhos de morango.
Pintados por mim. À espera.
Foto recortada do site de Porto Alegre
Abri um livro antigo, fechado pelo tempo e pela minha ausência. Encontrei nele uma mensagem, escrita há alguns anos e que me fez pensar em mim. Não este eu de agora, mas o de antes. A poeta, a criadora. Me lembrei de como é viver em Porto Alegre, com todas suas cores e seus cheiros. Porto Alegre cheia de vida e de memórias. De Ipês florindo e indundando de roxo a retina dos transeuntes cansados, abatidos.
Lembrei dos poemas e da casa de cultura. Das praças e da primavera. Do cheiro morno que encanta e entontece. Do vento que sopra e não arrasta nada, mas perturba.
Pensei então que não devo nomear o que sinto, sob pena de estar errada. Não é bem saudade, nem nostalgia. Não é desespero, nem aflição. Talvez seja uma angústia morna e calada que se esvai em esquecimento. Uma angústia que se dilui em afazeres banais e inúteis. Uma vaga sensação de vazio atracado em um porto longínquo. Quanto à mim, já não sei. Não sou mais aquela de antes e por horas sinto-me ausente. Não carrego aquela força intensa e febril de versos que nadavam em mim, como eu nadava em um rio de incertezas. Agora já mais calada não escrevo por um certo medo de me encontrar, de ressucitar a beleza de ver o que outros não vêem. Uma beleza triste que vem do desejo de ser um poema, uma canção, um filme do Tornatore. Um quadro de Degas.
Porto Alegre fica aqui dentro, passeando por mim em lampejos de lembranças. Flashbacks de um tempo ido. Porto Alegre ainda amanhece todos os dias e anoitece ao lado daquele lago que todos chamam rio. E eu aqui a atracar meu barco em outro porto.
Crônica de mais um dia em uma terra [ainda] estranha
O despertador toca às 6 e 20 da matina. Desorientada recolho a roupa
úmida
do banheiro, deixada ali na noite passada estendida em cabides brancos
de plástico e penduradas no box de vidro embaçado. Com sorte, penso, a roupa que
saiu de máquina meio molhada ainda, não precisará ser lavada
novamente. Dobro a roupa com pouco desvelo. Ainda meio dormida, entro no banho e
saio com a mesma agilidade de um elefante correndo. Tomo café. Café de três
dias, porque não tenho tempo de passar café na hora. Nem tempo, nem
disposição.
Estou saindo quando o Gato acorda. Dou-lhe tchau e ele nem nota a
minha franja esquisita, feita em 30 segundos de entusiasmo. Mas, ele nota que
estou com meus mocassins vermelhos que ele tanto não gosta. Olha meus pés censurando-os naquele silêncio que lhe é tão típico. Não fala nada,
nem
eu. Confesso que a combinação é um tanto diferente, mas um tanto
confortável também. Caminho até a estação do metrô, sem sentir dor nos pés e me achando
excêntrica, despojada.
Passo por algumas vitrinas e discretamente reparo na
franja. Também um tanto diferente. Passo os dedos pelo cabelo, para escondê-la. Inútil. O cabelo teima em me acenar um oi perto dos olhos. Minha visão periférica se encontra com as pontas curtas do que um dia foi um longo cacho de cabelo crespo...ou quase.
Chego a estacão. Dessa vez entro em um dos vagões da frente. Sento-me e
começo a ler um livro sobre a história das especiarias comercializadas
pelos portugueses. Açúcar e pimenta. Interessante. Quase não penso na franja. O Gato nem notou. Melhor não comentar nem esse fato, nem a minha estrepulia. Saio do metrô, a viagem é sempre mais curta quando leio algo. Na minha frente uma senhora de tailler e sapatos chiques e enfadonhos caminha. Sim existem coisas chiques e enfadonhas. Ela vai para o mesmo lugar que eu. Tenho certeza. Ela tem cara de chata.
Chego ao meu cubículo às 7 e 55. Às 8:00 estou tentando lembrar onde eu
parei e como recomeçar. A vista daqui é algo. Horrível. Vejo carros se
movendo ao longe. O nevoeiro. Os prédios feios e inchados que poluem
esta cidade tanto quanto monóxido de carbono. Duas pontes antigas ao longe me ofertam, com suas enormes mãos de cimento, uma certa nostalgia. E o resto é meio que um turbilhão cinza de janelas esquálidas. Avisto a cadeia da cidade e penso nos internos. Temos algo
em comum, também estou presa.
Depois de quase dormir, desço e busco um café que me anima e parece que
me dá idéias. Frustrada com a pesquisa que estou fazendo, decido perguntar a um bibliotecário que trabalha aqui se ele pode me ajudar. Triunfante por ter tentado algo novo me dirijo ao cubículo dele e só então me dou conta que minha tentativa é inútil. Ele tem problemas. Fisicamente me lembra o menino e psicologicamente, o que é pior, também. Quando lhe faço minha pergunta e ele desvia como um trem descarrilhado demorando quase dez minutos para me dar uma explicação inócua. Quanta perda de tempo. Mais uma vez. Volto a minha mesa e resolvo o problema em menos de 10 segundos.
Frustrada resolvo escrever um e-mail para o meu irmão que se transforma em uma crônica que me faz ter vontade de escrever. E escrever. Olho para o relógio e já é meio dia. Respiro aliviada. Sobrevivi a mais uma manhã confinada no meu cubíbulo estreito e entediante.
Onde estão meus cheiros favoritos?
Essa cidade não tem recantos.
Não, eu ainda sou uma estranha.

Imagem recortada do site oficial de Tarsila do Amaral
Estou vivendo um caso de amor com Tarsila do Amaral.
Uma daquelas paixões insandecidas que me acometem a cada temporada e que me fazem perder o tino. Esquecer a dor das miudezas do dia a dia.
Não, não penses que eu não gosto das pequenas delícias do quotidiano. Eu gosto. Mas isso às vezes me aborrece.
Sou inconstante , preciso de vento para levar a lugares diferentes, sentir emoções novas.
Viver em uma outra alma.
Tarsila, com suas cores e seus homens cheios de histórias diferentes, me oferece tantos sonhos iluminados de cores e de vida... Me alimenta os olhos, me acaricia a alma. Me faz querer estar em seus quadros.
Às vezes eu também me arrisco em pescarias. Sou frágil, não chovo, não molho meus pés no rio. Mas, eu pesco. Pesco sonhos e prosas. E depois lentamente volto para casa. Para amar Tarsila.
Gosto de frio
me faz sentir viva
gela os ossos e
deixa o rosto vermelho
Gosto da neve que se amontoa no chão
Gosto de correr no frio como que fugindo
sem ter para onde ir
Gosto do frio que me abraça
Eu já iniciei tantas vezes a escrever e parei. E parei.
Não é que eu não goste de escrever. Não gosto de rotina. E é também por isso que meu humor varia tanto.
Um escapismo que às vezes não dá certo.
Sou inconstante. Meus textos são fragmentados, como eu mesma.
Minhas memórias; meus fantasmas.
Por isso eu sempre escrevi poesia. Por isso faço de mim, versos.
Me ancorei nas palavras concisas, na simplicidade da forma.
No vocabulário enxuto.
me seguro na respiração da cor, do ritmo novo.
Vidros que quebram
Não sou fronteira, não tenho um rótulo,
não quero nomenclaturas.
Que livrar-me de ser.
Não quero ser poema, nem dor
Nem silêncio.
11/02/2002
Não sei escrever prosa.
Gosto do texto curto que sentencia.
Planejo escrever uma memória
que me resgate de meus pesadelos
Me liberte de minhas memórias cancioneiras.
Preciso aprender a pescar vida nesse lago turvo.

Outros Mares de Mim

Farmer's Market
Quando o dia rompeu eu já estava acordada, sentindo na cama tua ausência. O silêncio cortante da casa sem ti. Depois do banho e do café forte eu saí. Queria trazer frutas e memórias para a casa. Sem me dar conta, fui passear no mesmo lugar onde meses antes fazíamos as compras da semana. Ao ar livre. Com teu cheiro preso dentro de mim. Com aquele teu ar carregado de quem sempre quer mais.
Sentei-me na calçada para ouvir jazz. Cantarolei um pedaço de uma música que ouvia da janela do nosso apartamento antigo. Quero a vida sempre assim com você perto de mim até o apagar da velha chama...
Minha chama ainda arde, vivaz, alvisareira. Mas, tu, tu já não estás. Me lembro que não entendo como essa chama arde sem oxigênio. Dou de costas, "viver ultrapassa qualquer entendimento" diria ela.
Não estavas entre as pessoas que eu observei por algumas horas, sob um céu mormacento, pesado. De um cinza pálido e poluído. Eu estava lá, quase cega pela luz. Com a testa retesada, meio que sorrindo. Por alguns instantes, eu me espichei no sol como um gato que dorme na janela e se espreguiça de quando em quando. Eu queria cada partícula do meu corpo fervendo. Eu queria o ar daquele momento me fecundando. Eu te queria ali: beijo de homem que eu não vejo há tempos.
Me contive, como de costume. Olhei as pessoas indo e vindo, algumas delas caminhando com uma pressa atípica para uma manhã de domingo. Partilhei da intimidade de algumas delas, como quando eu ouvi casais conversando. Ou como quando as crianças me fitaram curiosas. Pensei no que fazer depois. No balançar das barracas, inconstantes, sem raízes. No vento sem cheiro que me inundava de lembranças tuas.
Uma manhã sem ti. E eu vendo famílias empurrando carrinhos de bebês, homens levando bouquets em suas sacolas, pessoas comprando plantas. Algumas delas experimentando queijos, falando sobre festas, molhos de morango, falando línguas que não entendo. Às vezes balbuciando palavras que eu preferia não entender.
Vi um homem negro, de formas faciais suaves e delicadas, olhos verdes grandes e reluzentes. Atraído. Tentando vê-la por dentro. Ele tentava flertar com a loira-quase-albina que ouvia, atenta, a mesma música que eu. Nós não cruzamos sequer um olhar casual. Nem um flerte, nem uma intimidade. Somos estranhos, nós três.
Eu fiz carinho em um cachorro peludo que veio até mim. Ele se entregou aos meus afagos por alguns segundos. Engraçado como certas histórias se repetem. Depois do meu afago meio sem jeito (eu não sabia seu nome), ele voltou ao seu dono, que trabalha vendendo temperos e perfumes. Sim, perfumes em forma de planta. Salsa, manjericão, louro. Os aromas das casas na hora do almoço.
Nessa mesma manhã eu vi um livro que jazia em cima de uma mesa, um rapaz bonitinho tocando um instrumento mais alto que ele mesmo. Ele comia salada entre uma música e outra. Ele também bebia água e falava entre os dentes com a loira-albina e sem graça. Ela por sua vez, estava cobrindo minha visão, já não bastasse o sol. Ela não me deixava ouvir a música com meus sentidos mais pungentes.
Conversei com um estranho que me convidou para jantar. Ele era tão sem sal que seria bom para mim se eu sofresse de pressão alta. Lembrei do filme que vi ontem à noite, por causa do Egídio. Obrigada, querido. Tu me deste duas oportunidades de presente e nem me cobraste nada por isso. Não sei se te interessa, mas me explico. A oportunidade de ver que as pessoas que se ausentam são sábias. E que uma noite de sábado no sofá sozinha pode ser, no mínimo, instrutiva.
Why are you leaving? I'm leaving because I can.
I'm staying under you skin. In your teeth, in your hands, in your memory. In your hair. In your soul.
Não posso aproveitar muito da conversa com o sem sal. Talvez seu eu lhe tivesse dado uma chance...
Mas eu ainda te espero. Meu desinteresse por outros homens aumenta a medida em que relembro as palavras dele. O desdém dele por outras línguas. Talvez ele nem goste de beijo na boca.
Faltavam-lhe noções de geografia. Ele não sabe, não anseia por outros lugares, onde as pessoas têm vidas e cores diferentes. Me disse que era de Boston, mas que havia se econtrado em L.A. Too bad, I'm leaving in a week. Ciao, L.A. Falou de negócios, acho que queria me impressionar. Ele não sabia que eu não tenho preço. Ninguém me põe em gaiolas, niguém compra minha companhia.
Quando eu já não estava mais ali pela música, no momento exato que eu esqueci o jazz, eu dei-lhe tchau e me fui. Eu não disse que lamentava quando saí, apenas saí. Voando alto, voltando para ti.

Entardecer em Weston, FL Publicado originalmente no máquina de escrever. Sem data
O céu estava alaranjado, cheio como uma mulher prestes a parir. Suculento como uma laranja madura. Abri os olhos e me vi, ali, lugar estranho, cama vazia, sem chão.
A lagoa ao longe calma e vacilante me lembra o Guaíba. Cores que contrastam, mas trazem memórias. Penso em um café da manhã elaborado, com gosto de passado. Não tenho fome. As mãos trêmulas procuram o frio do outro lado da cama. Um poema quem sabe?
Não, minhas memórias não te trazem a mim. Meus sonhos não me fazem mais corajosa, menos mesquinha. Entre outras coisas, sinto saudade, ardo com febre, anseio por ruídos de ti. Restam-me memórias, sombras, um lago. Incertezas. Weston amanhece e eu volto a dormir no silêncio de corujas sem ninho.
Não escrevo mais poemas
Sou consumida por chamas ardentes
e insaciáveis palavras de amor
por uma bebida híbrida
de desejo e ânsia
Devoram-me os escuros e o frio
Me reconforto pensando em ti,
te transfundindo em minhas veias
Danço sozinha na cama enquanto minha cabeça
Balança, como em um navio em alto mar
e as cores nas paredes refletem teus olhos de lava
não escrevo mais poemas
Sou devorada por sopros de paz e sossego
Desertos que não me levam à ti
Sou saboreada na mesa de bar, no breu da noite,
Ausente
No cheiro das noites vazias
E já que não escuto mais vozes
não escrevo mais poemas
href="http://photos1.blogger.com/blogger/2107/119/1600/p4339_venetian_fishing_boats_0551.jpg">
A água do meu sonho me lembrava o Lago Rio Guaíba. Entrava água pelo teto e nos olhávamos com medo. Pedimos ajuda. Até que eu vi um cavalo bonito perto.
Nunca estive em Veneza, Paris ou na cidade do Porto. Mas anseio por ir, ver, enxergar. Anseio por andar no Rio Douro, em uma barca cheia de vinhos.
Quero que meu corpo deslize em mansas águas e que o som da água acalme o vento. Que soprem por meu rosto as infindáveis calmarias que a felicidade traz. Que as mãos do homem que amo me invadam e me dispersem em moléculas quentes, que aqueçam o Rio. Me dêem um porto.
Me lanço em novas águas e te espero. Pinto um quadro imaginário, cores, homens, crianças. Cores novas, misturas. Represento cada nota com uma cor diferente. Cada espasmo um desvario maior.
Que venham as loucuras, as febres.
Terça-feira, Agosto 09, 2005
DA SÉRIE A VAIDADE NOSSA DE CADA DIA
Ex-Cabeluda Convicta: Eu vou ali cortar o cabelo e já venho!Este é mais ou menos o visual almejado:


Segunda-feira, Agosto 08, 2005
The March of the PenguinsApesar do cinema quase cheio de gente mal educada e crianças barulhentas, este documentário foi uma forma incrível de passar parte do finalzinho da tarde de domingo.
A fotografia do filme é belíssima e a história comove. Eu sabia muito pouco sobre pingüins. Eu sabia que os pingüins são monogâmicos, mas não fazia a menor idéia do porquê. E no meu mal informado juízo, eles tinham o mesmo parceiro pela vida toda.
O documentário foi muito informativo. Esses animaizinhos que são aves, mas não voam, mas nadam e conseguem prender a respiração por quinze minutos, acasalam com o mesmo par durante uma temporada inteira. Afinal, eles precisam estar juntos e constituir uma família, pois o processo de reprodução é complexo e seria impossível trocar de companheiro no meio do caminho...literalmente.
Adorei as partes em que o filme os mostrou buscando comida no mar, e quando eles, cansados, deslizavam em suas barrigas fofas. Adorei vê-los caminhando e protegendo seus filhotinhos. A forma como eles se identificam também foi uma revelação. Cada par se reconhece, depois de idas e vindas para se alimentarem, através de um código cantado. Isso mesmo, até mesmo o pai e a mãe reconhecem o filho através de um canto, que funciona como código para saber quem é quem naquele amontoado de pingüins. E incrível também é o fato de que o pingüim macho é quem cuida dos ovos por aproximadamente três meses, e por isso ele perde cerca de 50% do seu peso.
Assistindo àquela verdadeira odisséia no gelo, no clima mais inóspito do planeta, o Pólo Sul, eu fiquei imaginando o trabalho que a equipe de filmagem teve para conseguir as imagens, tão belas por sinal. Sorte nossa, que podemos assistir ao resultado de um trabalho tão árduo e tão bonito de confortáveis poltronas reclináveis...em um cinema perto de casa!

Moacyr Scliar
A Mulher Que Escreveu a Bíblia consegue misturar humor e erotismo, além de outras coisas, de uma forma muito, muito encantadora. Estou adorando o tema da fealdade x inteligência. Estou curiosa sobre o final. Enquanto isso me delicio com a narrativa leve e interessante!
Sexta-feira, Agosto 05, 2005

Mais de Madison, Wisconsin
Madison tem um charme ímpar. A arquitetura é muito bonita, com jeito de velho mundo. Os lagos são verdes e calmos e abraçam a cidade por todos os lados. As pessoas caminham pela State St. animadamente.
Em uma cafeteria local a moça me perguntou o porquê de eu querer o meu chocolate quente extra quente. Raramente as pessoas têm esse tipo de atitude neste país. O prédio do capitólio pode ser visto de quase qualquer parte da cidade, de suas colinas verdes e frescas, como maços de menta.
É o máximo entrar nas livrarias que ficam ao longo da State St. Tinha até uma livraria feminista, com uma coleção impressionante e um café bastante aconchegante.
Os restaurantes se alinham, um ao lado do outro, com uma variedade de dar inveja para quem mora em Weston (nesse caso, euzinha): comida do oriente médio, mexicana, etiopiana, caribenha...e por aí vai.
Os lugares para dançar também entram em cena à noite. Aos domingos a programação é gratuita em vários estabelecimentos. Inclusive lugares para dançar salsa.
Verdade se diga que eles ainda não tem Santiago Calatrava, que ficaria bárbaro perto de um dos lagos, mas quem sabe um dia. Milwaukee já tem. Enfim, Madison, um dia quem sabe eu me entregue aos teus encantos...

Madison, Wisconsin: A princesinha de três lagos magníficos
Quinta-feira, Agosto 04, 2005

Sempre gostei dos livros do Moacyr Scliar. Gosto do seu humor e dos temas judaicos.
Em
A Mulher Que Escreveu a Bíblia ele consegue misturar humor e erotismo, além de outras coisas, de uma forma muito, muito eficiente. Estou adorando o tema da fealdade x inteligência. Estou curiosa sobre o final. Enquanto isso me delicio com a narrativa leve e interessante!
Quarta-feira, Agosto 03, 2005
Terça-feira, Agosto 02, 2005
Uma série de eventos afortunados...
Segunda-feira, Agosto 01, 2005
Eu por mim mesmaNão posso me descrever pois não sei meu gosto. Gosto de saber dos outros, com um olhar curioso e atrevido.
Ouço música de todo tipo que vem de cores e lugares que ainda não conheço. Mas também ouço música de lugares que me sabem melhor que eu mesma.
As palavras me prendem em teias inquebrantáveis e eu espreito quem escreve. Admiro o humor e aquele que consegue rir de si mesmo. Gosto de lembrar o que eu lia em um passado distante para tentar me achar. As cidades do Veríssimo, os enigmas de Clarice Lispector.
A arte de Degas me alucina. Gosto de transgressão. Os homens e as cores de Tarsila do Amaral me encantam.
A esperança de Frank Capra me comove.
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